quinta-feira, 10 de junho de 2010

Querido John - Um trecho do livro

Capítulo 2

Acho que devo explicar por que pulei no mar para recuperar a bolsa. Não pensei que ela me veria como algum tipo de herói, não queria impressioná-la, nem mesmo me importava quanto dinheiro ela havia perdido. Tinha a ver com a vivacidade do seu sorriso e o calor de sua risada. Enquanto mergulhava na água, já sabia o quão ridícula fora minha reação, mas aí já era tarde demais. Toquei na água, mergulhei e emergi. Quatro rostos me olhavam do parapeito. O camiseta-rosa ficou positivamente irritado.
“Onde está?”, gritei para eles.
“Ali!”, a morena gritou. “Acho que ainda consigo ver. Está afundando...”
Demorei um minuto para localizar a bolsa enquanto o sol caía, e as ondas do mar faziam seu melhor para levar-me de volta ao píer. Nadei até a lateral e ergui a bolsa acima da água o máximo que pude, embora ela já estivesse ensopada. A maré tornou minha volta à costa mais fácil do que eu temia, e às vezes eu olhava para cima e via quatro pessoas acompanhando meu percurso.
Finalmente, senti o fundo e segui para fora da arrebentação. Chacoalhei o cabelo para tirar a água, atravessei a areia e os encontrei na metade da praia. Estendi a bolsa.
“Aqui está.”
“Obrigada”, disse a morena, e quando seus olhos encontraram os meus, senti um clique, como uma chave destravando um cadeado. Acredite, não sou romântico. Embora já tenha ouvido muito sobre amor à primeira vista, nunca acreditei nisso, e ainda não acredito. Mesmo assim, havia algo ali, real e reconhecível, e eu não conseguia desviar o olhar.
De perto, ela era mais bonita do que eu notara de primeira, mas sua beleza tinha menos a ver com as feições do que com seu jeito de ser. Não era apenas a ligeira abertura entre os dentes, mas também a forma casual com que ela ajeitava uma mecha de cabelo rebelde, sua postura solta.
“Você não tinha que ter feito isso”, disse ela com a voz um tanto maravilhada. “Eu ia pegar.”
“Eu sei”, concordei. “Vi você se preparando para pular.”
Ela inclinou a cabeça para o lado. “Mas você sentiu uma necessidade incontrolável de ajudar uma dama em perigo?”
“Algo assim.”
Ela avaliou minha resposta por um momento, depois voltou a atenção para a bolsa. Começou a tirar coisas – carteira, óculos de sol, viseira, um tubo de protetor solar – e as entregou para a loira para torcer a bolsa.
“Suas fotos molharam”, disse a loira, remexendo na carteira.
A morena ignorou, continuando a torcer os dois lados da bolsa. Quando finalmente ficou satisfeita, pegou suas coisas de volta e recolocou-as na bolsa.
“Obrigada novamente”, disse ela. Seu sotaque era diferente do falado no leste da Carolina do Norte, era mais anasalado, como se ela tivesse crescido nas montanhas perto de Boone ou próximo à fronteira da Carolina do Sul, a oeste.
“Não é grande coisa”, murmurei, mas não me mexi.
“Ei, talvez ele queira uma recompensa”, intrometeu-se polo-rosa, falando alto.
Ela olhou para ele, então para mim. “Você quer uma recompensa?”
“Não.” Acenei uma mão. “Apenas feliz em ajudar.”
“Sempre soube que o cavalheirismo não estava morto”, ela proclamou. Tentei detectar uma nota de provocação, mas não ouvi nada em seu tom de voz indicando que ela zombava de mim.
Polo-laranja me mediu de cima abaixo, observando meu corte de cabelo. “Você é fuzileiro naval?”, questionou, abraçando a loira novamente.
Balancei a cabeça, negativamente. “Não sou um dos poucos ou orgulhosos. Quis ser tudo o que eu poderia ser, por isso, entrei para o exército.”
A morena riu. Ao contrário de meu pai, ela tinha visto os comerciais.
“Eu sou Savannah”, disse ela. “Savannah Lynn Curtis. E estes são Brad, Randy e Susan.” Ela estendeu a mão.
“Eu sou John Tyree”, disse, estendendo a minha também. A mão dela era quente, macia como veludo em alguns pontos, mas calejada em outros. De repente, percebi quanto tempo se passara desde que eu tinha tocado uma mulher pela última vez.
“Bem, sinto que deveria fazer algo por você.”
“Você não precisa fazer nada.”
“Você já comeu?”, ela perguntou, ignorando o meu comentário. “Estamos nos preparando para comer em volta da fogueira, e vai ter muita coisa. Gostaria de se juntar a nós?”
Os caras trocaram olhares. Polo-rosa Randy parecia francamente triste, e, admito, isso fez eu me sentir melhor. “Ei, talvez ele queira uma recompensa.” Que babaca.
“Isso, vamos lá”, disse Brad finalmente, nem um pouco entusiasmado. “Vai ser divertido. Estamos alugando o lugar ao lado do píer.” Ele apontou para uma das casas na praia, onde meia dúzia de pessoas descansava no deck dos fundos.
Embora eu não tivesse vontade de passar meu tempo com caras da fraternidade, o sorriso de Savannah era tão caloroso que as palavras escaparam dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-las.
“Parece bom. Vou pegar a prancha que ficou no píer e apareço lá daqui a pouco.”
“Nós nos encontramos lá”, disse Randy. Ele deu um passo em direção a Savannah, mas ela o ignorou.
“Vou até lá com você”, disse Savannah, abandonando o grupo. “É o mínimo que posso fazer.” Ela ajustou a bolsa no ombro. “Vejo vocês daqui a pouco, ok?”
Viramos em direção à duna, onde as escadas nos levariam até o píer. Os amigos dela demoraram um minuto, mas quando começamos a andar, lentamente tomaram o caminho da praia. Do canto do olho, vi a loira virar a cabeça por debaixo do braço de Brad para dar uma última olhada em nós. Randy também olhou, emburrado. Eu não tinha certeza de que Savannah havia notado os olhares até termos nos afastado um pouco.
“Susan provavelmente acha que eu sou louca de fazer isso”, disse.
“Fazer o quê?”
“Acompanhar você. Ela acha que Randy é perfeito para mim, e está tentando nos juntar desde que chegamos, hoje à tarde. Ele está me seguindo o dia todo.”
Concordei, sem saber como reagir. Ao longe, a lua cheia e brilhante começou sua lenta ascensão do mar, e notei Savannah olhando para ela. Quando as ondas arrebentavam, espalhavam gotas prateadas como se o flash de uma câmera tivesse disparado. Chegamos ao píer. O corrimão estava arranhado pela areia e pelo sal, e a madeira castigada pelo tempo começava a lascar. Os degraus rangiam enquanto subíamos.
“Onde você está servindo?”, ela perguntou.
“Na Alemanha. Estou em casa, de licença por duas semanas, visitando meu pai. E você é das montanhas, suponho?”
Ela olhou para mim com surpresa. “Lenoir.” Ela me observou. “Deixe-me ver: meu sotaque, não é? Você acha que eu falo como caipira, não acha?”
“De jeito nenhum.”
“Bem, eu sou. Caipira, quero dizer. Cresci em uma cabana de madeira e tudo mais. E sim, sei que tenho sotaque, mas já me disseram que muitas pessoas acham isso encantador.”
“Randy parece pensar assim.”

- Primeira Carta (sublink Primeira Carta)


Querido John,
Há tanta coisa que quero dizer para você, mas não tenho certeza por onde devo começar. Devo começar dizendo que te amo? Ou que os dias que passei com você foram os mais felizes da minha vida? Ou que, no curto espaço de tempo que nos conhecemos, passei a acreditar que fomos feitos um para o outro? Poderia dizer todas essas coisas e tudo seria verdade, mas, enquanto releio estas palavras, a única coisa que passa pela minha cabeça é que queria estar com você agora, segurando sua mão e olhando seu sorriso elusivo.
No futuro, sei que vou reviver o tempo que passamos juntos mil vezes. Vou ouvir seu riso, ver seu rosto e sentir seus braços em torno de mim. Vou sentir falta de tudo isso, mais do que você pode imaginar. Você é um cavalheiro raro, John, eu estimo isso em você. Todo o tempo em que estivemos juntos, você nunca me pressionou para dormir com você, e eu não posso dizer o quanto isso significou para mim. Tornou o que temos ainda mais especial, e é assim que eu quero me lembrar para sempre do período que passamos juntos. Como uma luz branca e pura, cuja contemplação é de tirar o fôlego.
Penso em você todos os dias e sei que, quando for te ver amanhã, dizer adeus será a coisa mais difícil que já fiz. Parte de mim teme que chegue um momento no qual você não sinta mais o mesmo sentimento, que por algum motivo você esqueça o que nós compartilhamos, então é isso que eu quero fazer. Onde quer que você esteja e não importa o que esteja acontecendo em sua vida, na primeira noite de lua cheia – como na noite em que nos conhecemos – quero que você a encontre no céu noturno. Quero que você pense em mim e na semana que partilhamos, porque, seja onde for, seja o que estiver acontecendo na minha vida, é exatamente isso o que vou fazer. Se não podemos estar juntos, pelo menos podemos compartilhar isso, e talvez entre nós, sejamos capazes de fazer isso durar para sempre
Eu te amo, John Tyree, e eu vou agarrar-me à promessa que uma vez você fez para mim. Se você voltar, vou casar com você. Se você quebrar a sua promessa, vai partir meu coração.
Com amor,
Savanna

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